Alinhavos
Não sei onde isso termina e talvez esse seja o ponto.
Nem sempre, entretanto, se vasculhar as paredes da memória rasa, um fio solto de esperança ainda persiste. Costurar a vida não é garantia de bons remendos, digo isso porque cresci entre tecidos, linhas, agulhas e moldes que traçaram, mas não contornaram a direção.
Segui o caminho de terra batida, com as solas dos pés vermelhas e nenhuma bagagem nas mãos, porque gosto de mantê-las livres para alcançar seja lá o que for.
Aprendi cedo que excesso pesa e não falo só de coisas. Palavras demais sufocam, promessas engessam, expectativas alheias apertam como roupa que encolheu na lavagem errada. Por isso sigo soltando fios, desfazendo nós, aceitando que nem todo ponto precisa fechar. Há costuras que existem apenas para impedir que a gente se desfaça por completo.
A esperança, essa linha teimosa, não se rompe fácil. Às vezes se esconde no fundo da gaveta, entre lembranças amareladas e planos que nunca couberam em lugar algum. Mas ela está lá. Esperando mãos menos cansadas, olhos menos duros, um dia qualquer em que respirar não seja um ato de coragem.
Continuo andando, tropeçando em mim mesma, refazendo trajetos, rasgando mapas. Não sei onde isso termina e talvez esse seja o ponto. Enquanto houver estrada, enquanto houver fio, sigo alinhavando a vida do jeito que dá: torta, imperfeita, mas minha.
Evoé, com todo o meu coração e as mãos sujas de estrada
Tita Tuif


